Pesquisa busca compreender relação entre polícia, cultura e favela no Rio de Janeiro

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Como iniciativas voltadas para arte e cultura podem influenciar políticas públicas de segurança em favelas e territórios populares? Por que a polícia opera de modo completamente distinto, dependendo da região da cidade onde atua? Como a lógica da “guerra às drogas” afeta os moradores das periferias e favelas onde existe a presença do tráfico? Estas e outras questões fazem parte do projeto de pesquisa Alguém para cuidar de mim: novas formas de compreender a polícia, a cultura e a favela no Rio de Janeiro, da diretora da Redes da Maré Eliana Sousa Silva, contemplada com uma bolsa de estudos pela Newton Advanced Fellowship, da Inglaterra. O projeto, que tem a chancela da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Queen Mary University of London, tem como foco a aplicação de políticas públicas de segurança na Maré e possíveis saídas para alterar esta realidade, especialmente no campo da arte e da cultura.

Sobre a pesquisa

O programa de pesquisa tem duração de dois anos (2015-17) e prevê a realização de seminários, encontros com pesquisadores, entrevistas com moradores da Maré e policiais que atuam na favela, grupos focais de pesquisa qualitativa, aplicação de questionários e visitas a projetos em bairros da periferia de Londres, além da visita de uma delegação de pesquisadores britânicos à Maré em Novembro de 2016. A pesquisa é um aprofundamento do trabalho iniciado por Eliana Silva em sua tese de doutorado, onde analisou como percepções distorcidas em relação aos moradores de favelas afetam a implementação de política públicas de segurança nestes locais. Em seu trabalho, Eliana desmistificou a ideia de que os moradores de favelas seriam “cúmplices” do tráfico e mostrou que eles são, na verdade, as principais vítimas de uma política de segurança baseada na guerra às drogas, que considera as favelas como “territórios inimigos” a serem conquistados. Embora o foco de investigação seja a Maré – complexo de 16 favelas situadas no Rio de Janeiro – o estudo estimula novas formulações e práticas em outras comunidades populares brasileiras e do Reino Unido. “É impossível construir uma política de segurança pública democrática e cidadã quando a polícia faz repetidas incursões violentas em comunidades pobres, não raro com a morte de moradores, geralmente jovens e negros”, avalia Eliana Silva.

Confira abaixo alguns artigos produzidos por Eliana (em inglês)

Seminários e eventos públicos

No dia 26 de Fevereiro de 2016, o projeto realizou o seminário ‘Dialogues on Public Security: experiences in Brazil and in the UK’na Queen Mary University of London em Londres. O segundo seminário aconteceu no Rio de Janeiro, na Sala Cecília Meirelles, no dia 30 de Novembro de 2016. Entitulado ‘Diálogos Sobre Segurança Pública: experiências Brasil e Reino Unido‘. 

Para mais informações sobre os seminários acesso os links abaixo:

Sobre Eliana Sousa Silva

Doutora em Serviço Social pela PUC-Rio, diretora do Departamento de Integração Universidade Comunidade (DIUC), coordenadora do curso de Pós Graduação em Segurança Pública do Departamento de Direito e Serviço Social  da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eliana Silva é autora do livro Testemunhos da Maré, que está em sua segunda edição e que você pode ler gratuitamente aqui. Além da sólida formação acadêmica e da longa experiência como liderança local na Maré, a própria trajetória pessoal de Eliana aprofunda seus laços com os temas propostos na pesquisa. Filha de imigrantes paraibanos, Eliana cresceu na Maré, para onde se mudou aos sete anos de idade. Ali, se casou, criou seus dois filhos, entrou na universidade e consolidou o trabalho comunitário que desempenha há quase três décadas. Desde muito jovem, Eliana se engajou nas lutas e mobilizações da comunidade por direitos: foi presidente da Associação de Moradores aos 22 anos e em 1996 fundou uma das principais instituições locais, a Redes da Maré –referência nacional entre ONGs que atuam em espaços populares. Eliana é uma pesquisadora associada à People’s Palace Projects.

Relação delicada

Implementadas no Rio de Janeiro há cinco anos com a proposta de aproximação com os moradores das favelas, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s) também serão objeto do estudo feito em parceria com o People’s Project Palace, coordenado pelo professor Paul Heritage. Para Eliana, as UPPs não conseguiram inovar na forma como o Poder Público se relaciona com as comunidades populares. “O discurso das autoridades não se tornou realidade. E, nesta equação, perdem moradores e policias, que individualmente também são vítimas desta política baseada na guerra”, provoca. A pesquisa vai investigar, por meio de entrevistas e grupos qualitativos, como ambos – policiais e moradores – enxergam a intervenção do Estado nestes territórios. “Em meus estudos anteriores pude observar que hoje a polícia, que deveria ser uma garantidora do direito à segurança pública nas favelas, é vista pelos moradores como uma ameaça à sua própria segurança”, evidencia Eliana. A colaboração entre a Queens Mary University of London e a Universidade Federal do Rio de Janeiro proporcionará a conexão de iniciativas desenvolvidas pelo Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania (NIAC), ligado ao DIUC, e pela Redes da Maré, a uma ampla rede internacional de estudos – ampliando a visibilidade do trabalho e fortalecendo o intercâmbio entre pesquisadores e instituições.

Sobre a Redes da Maré

A Redes de Desenvolvimento da Maré é uma organização da sociedade civil fundada com o objetivo de lutar pela garantia de direitos na favela, em todas as suas dimensões. Sua criação é fruto de um longo processo de envolvimento de seus fundadores com o movimento comunitário não só na Maré mas em outras partes da cidade. Consideradas a “alma” da organização, a experiência e história pessoal de cada um de seus colaboradores compõem a metodologia de trabalho e produção de conhecimento da Redes da Maré. As ações da organização são baseadas em cinco eixos de atuação: Arte e Cultura, Educação, Desenvolvimento Territorial, Comunicação e Segurança Pública. Clique aqui para visita o site da Redes da Maré.

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