Este projeto de pesquisa visa entender o impacto de conflitos armados na saúde mental e no bem estar de pessoas que vivem em contextos de violência no Complexo da Maré, um conjunto de 16 favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro, com uma população de mais de 140 mil pessoas. Ao focar no Brasil – país de renda média inferior no qual o Estado leva a cabo uma intervenção de caráter militar em favelas dominadas pelo tráfico de drogas -, a pesquisa busca prover um entendimento dos transtornos mentais, neurológicos e relacionados ao uso de drogas no contexto de intensos conflitos armados em territórios periféricos, característicos de muitos dos países mais pobres e menos desenvolvidos.

A pesquisa tem por objetivo prover maior entendimento sobre a saúde mental e o bem estar de pessoas que vivem em comunidades expostas a fatores múltiplos de estresse (exclusão sociocultural, altos níveis de violência, acesso limitado a redes e instituições de cultura etc.), nas quais o cotidiano é marcado por restrições resultantes do controle e de combates armados no contexto da chamada “guerra às droga”. Embora a situação dos transtornos mentais, neurológicos e relacionados ao uso de drogas seja crítica nas periferias de muitas das maiores cidades de países de renda média e baixa, o caso das favelas do Rio de Janeiro caracteriza-se pela presença de uma narrativa em torno da venda e do consumo de drogas e de conflitos e abusos, o que faz da análise específica desses territórios, central para esta pesquisa, um meio pertinente para abrir novos caminhos para estudos futuros.

Diante da ausência de financiamento ou estruturas estatais que possam desenvolver, avaliar e manter intervenções de saúde mental complexas em países de renda baixa e média, estudar a saúde mental dos participantes e os recursos sociais que podem ser providos por meio do treinamento da população, de voluntários e famílias. Essa proposta lançará mão de abordagens de baixo custo com comprovada efetividade no contexto de zonas de conflito urbanas nos quais se dá a guerra às drogas no Rio de Janeiro.

Este projeto de pesquisa propõe três estudos:

  • Estudo 1: a ser conduzido com 200 usuários de crack em situação de rua, ou vulneráveis a tal, nos arredores das favelas da Maré, investigará a saúde mental dos participantes, seu conhecimento e percepção sobre transtornos mentais, neurológicos e relacionados ao uso de drogas, possibilidades de autocuidado e de assistência na comunidade, bem como a existência de redes informais de cuidado.
  • Estudo 2: investigará a saúde mental e o bem estar de pessoas afetadas por autos níveis de violência e insegurança, com foco em sua saúde mental, padrões de uso de drogas (legais e ilegais), histórico familiar e educacional, geração de renda e acesso a programas sociais, de saúde e de tratamento de dependentes. Incluirá uma survey com participantes de 1,2 mil residentes da Maré, incluindo cada uma das 16 comunidades, e 20 entrevistas semi-estruturadas com participantes dessa survey que vivam com transtornos mentais e/ou que façam consumo abusivo de drogas.
  • Estudo 3: consiste em práticas que se utilizam das artes para produzir narrativas e imagens que desafiem o estigma e a exclusão social associados aos transtornos mentais, neurológicos e relacionados ao uso de drogas, resultando em um livro com histórias de vida e uma instalação fotográfica pública.

Este projeto foi financiado pelo Arts and Humanities Research Council, pelo Economic and Social Research Council e pelo Global Challenges Research Fund. A equipe de pesquisa inclui Paul Heritage (Queen Mary University of London/People’s Palace Projects), Miriam Krenzinger (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Stefan Priebe (Unit for Social and Community Psychiatry, East London NHS Foundation Trust e Queen Mary University of London) e Marcelo Santos Cruz (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com a colaboração de Luiz Eduardo Soares e Eliana Sousa Silva (Redes da Maré).