A ARTE DO INTERCÂMBIO CULTURAL

O projeto “A arte do intercâmbio cultural” propõe uma investigação sobre intercâmbios culturais como processos de tradução, com foco nas transformações produzidas e potencializadas através do intercâmbio e do diálogo entre artistas, produtores culturais, gestores sociais e suas metodologias criativas e de mobilização cultural. O objetivo geral da pesquisa é questionar o que acontece quando práticas artísticas e ações culturais são traduzidas de um contexto sociocultural para outro. O que se perde e o que se apreende nessas transposições, em termos de linguagem e de visões de mundo? Como e em que medida esses processos transformam aqueles que produzem e se engajam nesse esforço de tradução? Enfim, se toda tradução é uma traição, como entender e avaliar a importância e o impacto das lacunas produzidas e dos elementos perdidos nesse processo?  

Financiado pelo Arts and Humanities Research Council (Reino Unido) e com o apoio do British Council e do Arts Council England, A arte do intercâmbio cultural é uma pesquisa colaborativa entre a Queen Mary University of London e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, visando realizar: 1) o mapeamento dos intercâmbios culturais anglo-brasileiros, com foco específico no caso de organizações artísticas das periferias urbanas, 2) cinco estudos de caso, de caráter etnográfico, com o objetivo de analisar as dinâmicas e resultados dessas trocas no contexto de experiências especialmente selecionados por sua continuidade e relevância. Foram privilegiados, na análise, o estudo das formas pelas quais essas organizações procuram mediar diferenças e traduzir a heterogeneidade dos universos sociais e expressões culturais da cidade e, mais especificamente, em que medida os intercâmbios entre o Brasil e o Reino Unido têm contribuído para produzir e disseminar inovações no campo da tecnologia social, transformando a paisagem urbana e a vida de seus moradores.

CONTEXTO DA PESQUISA

A experiência brasileira no campo da cultura, nas últimas décadas, tem atraído um claro interesse de pesquisadores, profissionais e ativistas dessa área, pelo caráter inovador de seus projetos de arte participativa, assim como pela implementação de políticas públicas relacionadas a estratégias mais amplas de desenvolvimento social. Esse projeto de pesquisa se insere nesse debate, visando contribuir para ampliar o escopo de suas questões com foco nos projetos localizados nas regiões econômica, social e culturalmente periféricas das cidades. Entre outros resultados, o material levantado na investigação permite discutir a viabilidade de os intercâmbios culturais bem sucedidos nessas áreas serem replicados em novos contextos.

Ao abordar o modo como ideias e práticas são transformadas através das interlocuções entre os indivíduos e grupos envolvidos em relações de intercâmbio cultural, a pesquisa investiga em que medida esses processos produzem rearticulações de sentidos e práticas nos dois pólos da relação. Esta discussão traz, implícita, uma reflexão crítica sobre os valores de “pureza”, “originalidade” e “autenticidade”, tradicionalmente associados às noções de arte e cultura, mas que são desconstruídos pela perspectiva da tradução como uma dinâmica de “mão dupla”. No contexto de um grande interesse do Reino Unido de criar novos diálogos culturais com o Brasil, bem como intensificar diálogos estabelecidos no passado recente, este projeto pergunta como o Reino Unido e o Brasil se traduzem um ao outro no contexto de intercâmbios culturais mediados por vozes da periferia.

A arte do intercâmbio cultural investiga como esses intérpretes “emergentes”, que são os atuais mediadores culturais da periferia do Brasil, se engajam no processo de tradução através desses intercâmbios. Entre esses intérpretes se destacam jovens artistas e ativistas culturais que têm surgido no Brasil através de vários projetos artísticos sediados em favelas e comunidades da periferia. Alguns deles estão convidados a participar diretamente do processo de pesquisa, o que permite uma maior diversidade de olhares e percepções sobre o universo estudado. Debates na área de políticas culturais e artísticas no Reino Unido têm enfrentado com dificuldade o dualismo em que a necessidade de se manter uma estética “de excelência” é confrontada com a procura por um novo propósito e valor social para as artes. Esta pesquisa se propõe a contribuir para ampliar esse debate, investigando como ideias e práticas radicais no contexto brasileiro trazem novas perspectivas, modelos alternativos e abrem novas vias para um trabalho transformador no campo da cultura.

A investigação foi realizada através da colaboração entre acadêmicos, artistas, formuladores de políticas públicas, ativistas e representantes de agências sociais e culturais, com o objetivo de descobrir novos modelos de intercâmbios culturais. Ela visa abrir possibilidades para novas abordagens e metodologias a serem usadas por organizações artísticas e formuladores de políticas, com o fim de fortalecer os diálogos acadêmicos e culturais entre o Brasil e o Reino Unido. A arte do intercâmbio cultural propõe, assim, uma aproximação de territórios periféricos de diferentes regiões do Brasil, procurando articular uma troca de saberes que poderá apontar novas perspectivas, que venham a desafiar ideias e conceitos tradicionalmente predominantes nos debates sobre cultura e valor cultural. Que permita, talvez, repensar a própria noção de tradução.

TRANSLATING CULTURES

 Este projeto de pesquisa visa contribuir para novos entendimentos a respeito da tradução de ideias, ideologias e formas de conhecimento, com o objetivo de descobrir modos de aumentar a eficácia de intercâmbios culturais.  A pesquisa iniciou o mapeamento de projetos artísticos de colaboração entre o Brasil e o Reino Unido de 2012 a 2016, período de grandes trocas culturais, que coincide com a transição das Olimpíadas e Paraolimpíadas de Londres para o Rio de Janeiro. Cinco estudos de caso foram escolhidos para destacar o capital social dessa troca, através da análise dos processos de tradução cultural e transformação nas periferias de alguns centros urbanos de diferentes estados do Brasil.  Estes estudos de caso foram compartilhados e discutidos em seminários em Londres e serão no Rio de Janeiro, com acadêmicos, organizações artísticas e culturais, formuladores de políticas e financiadores. Pensadores sobre a cidade foram convidados a produzir artigos propositivos para estabelecer os questionamentos que servem como base para os palestrantes dos eventos e como estímulo ao debate.  Dessa forma, o projeto visa contribuir para a criação de novos conhecimentos e influenciar práticas futuras de intercâmbio cultural, através de análises e debates que promovam uma reflexão a respeito do que se pode aprender com traduções que envolvem a periferia.

ALGUMAS QUESTÕES CENTRAIS DA PESQUISA

Como definir “intercâmbio cultural” e entender as possibilidades e limites de tais iniciativas como atos de tradução? A pesquisa examina os mecanismos dos intercâmbios culturais entre o Brasil e o Reino Unido, no período de 2012 a 2016. A partir da discussão teórica dos conceitos de tradução como dinâmica de interlocução e negociação entre universos culturais distintos e da noção de território como construção simbólica, a pesquisa foca as traduções culturais de atividades artísticas originárias de comunidades periféricas do Brasil no contexto do Reino Unido. A análise objetiva avaliar a eficácia dessas atividades no Brasil e examinar as mudanças ocorridas nos processos de sua transposição para um novo contexto.

Nesse sentido, questiona-se como os valores de território e identidade atuam na mediação desses processos de intercâmbio e troca cultural, com atenção especial para o caso das linguagens artísticas e iniciativas da cultura jovem. Até que ponto os processos artísticos são aprimorados ou prejudicados pela tradução? A pesquisa investiga em que medida o engajamento em atos de tradução pode produzir conhecimento, expertise e experiências no contexto de processos artísticos e de invenção sociocultural. Por outro lado, se examina também as situações nas quais os procedimentos e sentidos originais são diluídos ou perdidos nessas trocas. Até que ponto pode haver reciprocidade no ato de tradução, nos processos de intercâmbio cultural? Como calibrar os desequilíbrios políticos, sociais e históricos que afetam o aspecto de mutualidade do intercâmbio e, com isso, a qualidade e a confiabilidade dos atos de tradução?

O projeto trabalhou de forma colaborativa com tradutores, mediadores e artistas de modo a entender como, a partir desses diferentes pontos de vista, é possível pensar a possibilidade de criação de significados compartilhados e interpretações comuns através de diferentes processos de intercâmbio cultural. Quão sustentável é o processo de transformação? A pesquisa questiona os parâmetros através dos quais é possível medir o impacto dos intercâmbios entendidos como processos de tradução e transformação. Ao entender e definir a tradução como processo de troca cultural não só colaborativa mas também, e sobretudo, dialógica, este projeto visa contribuir para o entendimento da relação de tradução como processo imanente, uma dinâmica sempre incompleta e, por isso mesmo, produtora de novos entendimentos, significados e ações. Como estimular a inovação através das escolhas feitas por aqueles que se engajam nos atos de tradução que ocorrem no contexto dos intercâmbios culturais? Toda tradução simultaneamente seleciona, incorpora e exclui. Nesse sentido, toda tradução é, efetivamente, um ato de traição.

Ao se concentrar em tradutores, mediadores, ativistas e artistas oriundos de comunidades periféricas, esta pesquisa visa revelar os modos de produção dos significados alternativos por eles produzidos. Por outro lado, ao reconhecer os riscos e tensões potencialmente presentes nas relações entre universos culturais distintos, ela visa também discutir questões relativas à intolerância social produzida por “erros” de tradução e interpretação, bem como apontar caminhos estratégicos para lidar e superar esses conflitos e contradições.

METODOLOGIA

  1. Mapeamento dos diversos programas de intercâmbio cultural entre o Brasil e o Reino Unido. São investigadas, nesse levantamento, as características definidoras de cada projeto, como campo de atuação, tempo de existência, público atendido, etc. – bem como resultados alcançados, oportunidades abertas pelos intercâmbios e desafios encontrados na tentativa de alcançar objetivos estabelecidos.
  2. Realização de 5 (cinco) estudos de caso de projetos de intercâmbio cultural ocorrido no período de 2012 a 2016, selecionados a partir do mapeamento ou por serem reconhecidos como casos exemplares e bem sucedidos de projetos de tradução cultural entre diferentes contextos da cidade, com outras regiões do país e com o exterior.
  3. Dois seminários interdisciplinares (um no Reino Unido, em 2015, e outro no Brasil, em 2016), com a presença de participantes diretamente engajados em diversos aspectos de intercâmbios culturais. Em cada seminário, ao menos 4 (quatro) dos participantes são jovens brasileiros atuantes em projetos culturais de periferia.
  4. Para cada seminário são apresentados textos propositivos, de autoria de intelectuais, artistas e ativistas de diferentes áreas de conhecimento especialmente convidados, com o objetivo de provocar reflexões sobre as atividades de intercâmbio como atos de tradução. Esses textos servem como base para a curadoria dos seminários e estímulo ao debate.
  5. Este site, especialmente criado para o projeto, abriga todos os resultados da pesquisa e do seu processo de realização, como: mapeamento dos programas de intercâmbio entre Brasil e Reino Unido, publicações de relatórios de andamento e documentação audiovisual sobre os cinco estudos de caso, além dos textos propositivos e relatórios finais. Além de textos, estão disponibilizadas também fotos, vídeos, gravações sonoras e outros materiais relevantes coletados e produzidos na pesquisa.

O projeto da pesquisa binacional A Arte do Intercâmbio Cultural/The Art of Cultural Exchange tem coordenação geral do Professor Paul Heritage, Queen Mary University of London, e como Pesquisadora colaboradora a professora Ilana Strozenberg, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Saiba mais sobre a equipe aqui.